16 de outubro de 2019

Dor significa lesão?

Por muitos anos a humanidade interpretou a dor como resposta a uma lesão ou dano nos tecidos do corpo.
A IASP (Associação Internacional para o Estudo da Dor), em seu conceito mais do que difundido sobre dor, de 1994, afirma que dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada a um dano real ou potencial dos tecidos, ou descrita em termos de tais lesões.
Podemos discutir esse conceito de várias maneiras diferentes, interpretar de várias formas, inclusive questionar se a dor é de fato uma experiência desagradável. Há quem possa discordar. Mas, de uma forma geral, o conceito já atribui que a dor é não só sensorial, mas também emocional. E que pode ou não estar associada a uma lesão.
Vamos exemplificar de duas formas diferentes:
Você já se pegou com sua roupa com mancha de sangue e quando foi procurar havia um machucado no braço ou na perna que nem sabia? Pois é, nesse caso houve uma lesão tecidual que não provocou dor.
Você já sofreu por amor? Já sentiu dor após ter levado um "pé na bunda"? Uh! Pois é, doeu e não havia lesão, certo?
Resumindo: pode ter lesão e não haver dor. Pode ter dor e não haver lesão.
Hoje há autores que já consideram a dor uma EMOÇÃO. Isso mesmo!
Sabemos que a dor é uma das formas que o nosso organismo encontra para nos defender quando sente ameaçado.
Essas ameaças podem ser físicas, químicas, biológicas, como por exemplo pisar em um prego, ter uma inflamação, estar com uma bactéria, respectivamente.
Mas, com muito mais frequência, as tais AMEAÇAS podem ser fatores COGNITIVOS e/ou EMOCIONAIS.
A dor crônica está, certamente, muito mais ligada à sensibilidade do nosso sistema nervoso e as influências cognitivas, emocionais ou afetivas, do que à lesão tecidual. Ou seja, como o meu sistema nervoso interpreta certas ameaças e a sua resposta.
Além disso lesão tecidual é algo a ser curado pelo corpo, é algo que vem e passa. Mas muitas pessoas sofrem de dores há anos. Será que o corpo não foi capaz de se curar após esse tempo todo? Já parou pra pensar nisso?
Dor por lesão tecidual tem um PADRÃO. Dói com certos movimentos, certas posições.
Porém, é extremamente comum às pessoas com dor crônica o relato de que foram viajar e lá não sentiram nada. Ops, como assim?
Se nesse caso a dor fosse de fato por lesão teria que doer do mesmo jeito, com os mesmos movimentos e posturas, independente de estar viajando ou não.
DOR CRÔNICA TEM UM CONTEXTO. Falaremos sobre isso em outro post. Todas as vezes que eu pedia para uma paciente levar as mãos na direção do chão ela sentia dor. Um dia deixei uma caneta cair propositalmente no chão e ela pegou sem dor. Simplesmente porque nesse momento o contexto foi modificado.
Também é comum ouvir as pessoas com dor crônica dizerem que a dor aumentou após um aborrecimento, estresse, discussão. Ora, e isso aumenta a lesão? Claro que não. Mas certamente a dor aumenta.
Então PARE e REFLITA. Se você tem dor crônica procure uma explicação mais coerente e razoável para ela. Não se leve pela simples ideia de que dói porque está machucado. Procurando aumentar a sua compreensão sobre a dor e buscando alternativas mais voltadas para o BIO-PSICO- SOCIAL as suas chances de melhorar aumentam.
Até porque muitos já tentaram diferentes tratamentos que abordam apenas o BIO e fracassaram nas tentativas de uma melhora mais duradoura.
Dissociar DOR de LESÃO é um grande passo para sua recuperação.

Fonte: Página Entendendo a dor crônica (Página destinada a esclarecer e trazer informações dobre dor crônica, assim como apresentar possibilidades para que as pessoas melhorem)