16 de janeiro de 2020

A DOR E O CÉREBRO

Ainda há muito o que se descobrir através das pesquisas, mas é provável que o que as pessoas pensam sobre o seu problema (a sua dor), e os comportamentos adotados, contribuam para as mudanças mal adaptativas no cérebro.
Parte do que a dor faz é nos motivar a mudar um comportamento. Geralmente, as atitudes que tomamos são úteis para nós, elas minimizam o risco de aumentar o problema e nos ajudam na recuperação. Esses são comportamentos adaptativos. Fazer repouso e enfaixar um tornozelo inchado ou colocar o polegar na boca para esfriá-lo após uma queimadura, são comportamentos normais, que provavelmente ajudarão a melhorar.

Alguns comportamentos não são úteis na recuperação. Eles são mal adaptativos. Algumas coisas que ajudam inicialmente, não se mantém ao longo do tempo. Imobilizar um tornozelo dolorido, por alguns dias, pode ser uma boa ideia, porém o processo de reparo necessita de movimento. Consequentemente, o repouso por algumas semanas ou meses dificulta a recuperação. Enquanto colocar o seu polegar queimado na sua boca por alguns minutos pode ajudar, deixá-lo lá, por alguns meses, definitivamente não vai ajudar a otimizar a saúde dos tecidos na área.

Pesquisas recentes mostram que as mesmas ideias devem ser aplicadas ao cérebro, o lugar onde todas as nossas experiências são construídas. O nosso cérebro é extremamente plástico e irá se modificar dependendo do nosso comportamento. Os taxistas de Londres têm um largo hipocampus, área responsável por lembrar o nome de todas as ruas. Os deficientes visuais alargam a área do cérebro que recebe as informações dos dedos e você, provavelmente, reorganiza o seu cérebro um pouquinho a cada vez que usa uma ferramenta manual, como extensão da sua mão. Todas essas mudanças são adaptativas e muito úteis.

A dor também parece modificar o cérebro. Na dor experimental, em que o sujeito sabe claramente qual é a causa e que vai durar um tempo curto, as mudanças parecem ser adaptativas. Ocorre um espessamento da substância cinzenta em algumas áreas do cérebro, e isso está relacionado a uma melhor tolerância à dor. Nas condições clínicas (ex: dor lombar) existem evidências de que algumas dessas mudanças são mal adaptativas e contribuem para a manutenção do problema. Quando a dor está presente por muito tempo, as concentrações químicas em algumas áreas do cérebro parecem provocar um afinamento da substância cinzenta. Essas mudanças podem fazer as pessoas ficarem mais sensíveis e menos tolerantes aos estímulos dolorosos. Dessa forma, se tornam menos capazes de se livrar da dor. Essas mudanças influenciam na maneira como o cérebro percebe a área dolorida, tornando essa parte do corpo uma área menos conectada, de controle mais difícil e até um pouco estranha.

Ainda há muito o que se descobrir através das pesquisas, mas é provável que o que as pessoas pensam sobre o seu problema (a sua dor), e os comportamentos adotados, contribuam para as mudanças mal adaptativas no cérebro. Se preocupando excessivamente sobre a dor e suas consequências futuras, dando valor excessivo ao estímulo doloroso, protegendo e isolando a área e se movendo de forma anormal, por longos períodos, são os principais fatores que podem gerar essas mudanças negativas no cérebro. Esse é o tipo de comportamento que surge quando as pessoas tem uma elevada necessidade de proteger a área "machucada".

Exatamente o tipo de crença que várias abordagens de tratamento promovem, particularmente no caso da dor lombar. Imagens assustadoras de ressonância magnética, histórias de problemas degenerativos e de fragilidade ou coisas fora do lugar, além de instruções para imobilizar, usar cinta e se mover de forma não natural, são grandes maneiras de criar uma alta necessidade de proteção e que contribuem para tais mudanças mal adaptativas do cérebro. Então, informações acuradas sobre o seu problema e movimentos funcionais gradativos vão construir confiança e constituirão tratamentos que vão recuperar a esperança, reduzir o medo, a vulnerabilidade e a confusão.

Fonte: Texto traduzido e adaptado (http://www.pain-ed.com/blog/2013/12/19/pain-and-the-brain/) por Ney Meziat